Mais uma vez, Eunápolis volta ao noticiário estadual não apenas pela grandiosidade do seu tradicional Pedrão, mas pelos questionamentos que cercam a realização da festa. E, mais uma vez, o enredo parece conhecido dos eunapolitanos: órgãos de controle apontando irregularidades, processos administrativos sob suspeita, recursos, justificativas e uma cidade que acaba exposta negativamente diante da opinião pública.
Nesta semana, o Tribunal de Contas dos Municípios da Bahia (TCM-BA) determinou a suspensão do Chamamento Público nº 002/2026, relacionado à exploração comercial do Pedrão 2026. Entre os problemas apontados estão a ausência de Estudo Técnico Preliminar, falhas na modelagem do processo, falta de critérios objetivos para definição das atrações e possíveis descumprimentos da Lei Federal nº 14.133/2021, a nova Lei de Licitações.
É importante destacar que o Tribunal não proibiu a realização da festa. A Prefeitura poderá corrigir as inconsistências e republicar o edital. Mas a questão central vai muito além da legalidade formal do procedimento. O problema é a repetição.
Ao longo dos anos, o Pedrão se consolidou como um dos maiores eventos juninos da Bahia. Ao mesmo tempo, também se tornou alvo frequente de debates sobre gastos públicos, contratos milionários, critérios de contratação e fiscalização dos recursos empregados. O resultado é um desgaste contínuo da imagem institucional do município.
A população tem o direito de se perguntar: por que uma cidade que realiza essa festa há décadas continua enfrentando os mesmos questionamentos? Por que os órgãos de controle precisam intervir quase todos os anos em processos relacionados ao evento? Onde está o planejamento capaz de evitar que Eunápolis seja novamente associada a suspeitas, polêmicas e disputas judiciais?
Os protagonistas políticos também são conhecidos. O grupo liderado pelo prefeito José Robério Batista de Oliveira e pela ex-prefeita Cláudia Oliveira domina a política local há muitos anos. Com tanta experiência administrativa acumulada, seria razoável esperar que processos dessa magnitude fossem conduzidos sem gerar sucessivos alertas dos órgãos fiscalizadores.
O episódio levanta uma reflexão necessária. Não se trata de ser contra o Pedrão. A festa é patrimônio cultural, movimenta a economia, fortalece o turismo e gera renda para centenas de trabalhadores. O que a sociedade espera é que um evento dessa importância seja planejado com absoluta transparência, segurança jurídica e respeito ao dinheiro público.
Quando o Tribunal de Contas aponta falhas e determina a suspensão de um processo, a repercussão ultrapassa os limites burocráticos. O dano à imagem da cidade já está feito. Empresários observam, investidores observam, turistas observam e, principalmente, os próprios moradores observam.
Eunápolis merece ser notícia pela força da sua economia, pelo potencial do comércio, pela geração de empregos e pela sua capacidade de crescimento. Não merece ser lembrada, ano após ano, pelos mesmos conflitos administrativos envolvendo uma festa que deveria ser motivo apenas de orgulho.
A pergunta que fica é simples: até quando a cidade continuará convivendo com esse ciclo repetitivo de questionamentos, suspensões e desgaste institucional? A resposta interessa não apenas aos órgãos de controle, mas a toda a população de Eunápolis.

