Por Carlos Tagino
O que começou como uma tentativa de negar um suposto financiamento milionário para o filme sobre Jair Bolsonaro acabou se transformando em um dos episódios mais explosivos envolvendo o clã Bolsonaro nos últimos anos. E, segundo os documentos revelados, o principal inimigo da família teria sido justamente a própria língua. Áudios, mensagens, versões desencontradas e declarações contraditórias colocaram Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e aliados políticos no centro de uma investigação da Polícia Federal.
A reportagem publicada pelo Intercept Brasil aponta que o senador Flávio Bolsonaro negociou diretamente com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, preso em novembro de 2025, um aporte milionário para financiar o filme “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O problema é que as falas dos próprios envolvidos passaram a se contradizer publicamente — e foi justamente isso que acendeu ainda mais o alerta dos investigadores.
ÁUDIO DE FLÁVIO BOLSONARO EXPLODIU A CRISE
Segundo a publicação, em setembro de 2025, Flávio Bolsonaro enviou áudios cobrando a continuidade dos repasses financeiros. Nas mensagens, o senador teria demonstrado preocupação com atrasos nos pagamentos e citado o risco de “dar calote” em integrantes da produção do filme, como o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh.
Em seguida, Flávio teria enviado um vídeo acompanhado da frase:
“Tá perdendo, irmão! Tudo isso só está sendo possível por causa de vc”.
A resposta atribuída ao banqueiro Daniel Vorcaro teria sido:
“Que demais. Ficou perfeito.”
Mas a situação ficou ainda mais delicada quando, após a divulgação do caso, Flávio Bolsonaro negou tudo e afirmou que a informação seria “mentira”.
MÁRIO FRIAS DESMENTIU A VERSÃO DE FLÁVIO
A crise ganhou uma nova dimensão quando o deputado federal Mário Frias, apontado como produtor executivo e roteirista do filme “Dark Horse”, apresentou uma versão completamente diferente da sustentada por Flávio Bolsonaro.
Segundo Frias:
“Não há um único centavo do sr. Daniel Vorcaro em Dark Horse.”
A produtora GOUP Entertainment reforçou a declaração, afirmando que o longa possui vários investidores, mas nenhum deles seria Daniel Vorcaro ou empresas ligadas ao banqueiro.
Foi nesse momento que surgiu a principal contradição do caso: se Flávio Bolsonaro pedia dinheiro para financiar o filme, mas a produção garante que o recurso nunca entrou no projeto, então para onde foi o dinheiro?
DINHEIRO FOI PARAR EM FUNDO LIGADO A EDUARDO BOLSONARO NOS EUA
Os documentos analisados apontam que pelo menos 10,6 milhões de dólares — cerca de R$ 61 milhões — foram enviados em seis operações para o Havengate Development Fund LP, fundo registrado no Texas, nos Estados Unidos.
O representante legal do fundo seria o advogado Paulo Calixto, identificado como advogado de Eduardo Bolsonaro. O nome do corretor Altieris Santana também aparece ligado ao quadro societário.
Eduardo Bolsonaro mora em Dallas desde março de 2025, após perder o mandato parlamentar, e mensagens reveladas indicariam que ele também teria participado diretamente das negociações envolvendo os recursos enviados aos Estados Unidos.
PF INVESTIGA DESTINO DOS MILHÕES
Segundo a coluna, a Polícia Federal abriu uma linha de investigação para apurar se o dinheiro teria sido usado para financiar o estilo de vida e articulações políticas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
As apurações também investigam possíveis relações entre os recursos enviados ao exterior e ações políticas junto ao governo norte-americano.
O ponto que mais chamou atenção dos investigadores foi justamente a sequência de versões desencontradas dadas pelos próprios envolvidos. Enquanto Flávio Bolsonaro admitiria nas mensagens a negociação dos recursos, Mário Frias afirma que o dinheiro jamais entrou no filme. Já os documentos financeiros apontariam transferências para um fundo ligado ao entorno de Eduardo Bolsonaro.
A PRÓPRIA LÍNGUA DO CLÃ VIROU PROVA DA CRISE
O episódio rapidamente ganhou repercussão nacional porque as contradições passaram a se tornar o principal elemento da investigação. Áudios, mensagens, vídeos e declarações públicas passaram a desmontar as versões apresentadas pelos próprios aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro.
As investigações seguem em andamento e ainda não há conclusão definitiva da Polícia Federal sobre eventuais crimes. Todas as partes citadas tiveram espaço para manifestação nas reportagens originais.

